sexta-feira, 25 de março de 2016

O Oculto Caótico

O oculto me agrada. Talvez me conecte com um mundo mais profundo e por vezes egoísta, aquele que se encontra dentro de mim mesma. Conectar-se consigo é a tarefa mais difícil e conflituosa pela qual passamos em algum momento de nossas vidas. É um lugar sagrado, que só nós temos contato. De repente você está sentada no sofá lendo um livro de Caio Fernando Abreu, e vê, pela janela, um besouro voando em sua ingenuidade, nos começos do Outono, sobrevivendo à crueldade do tempo, quente como um inferno, sem amorosidade; não uma quentura gostosa e acolhedora,  mas sim uma quentura forte, expressiva, sem cuidados, uma quentura desagradável e causticante, como um sol medonho sorrindo maldosamente enquanto dispara raios de laser pelos olhos. Calor, muito calor. Calor já esperado - outono aqui não tem vez. Não há vento gelado, não há um sol frio que ilumina tudo, não há roupas que cobrem o corpo para aquecer a alma. É só mais um verão disfarçado de outra estação, com, talvez, algumas chuvas na madrugada. 
(me perco.)
Me desculpem, estou atemporal e embolada. Conecto-me comigo mesma. estudo os astros, as estrelas, a órbita lunar, a passagem de Netuno por Peixes, o Saturno que hoje entra em retrogradação pelo céu, até cerca do fim de agosto. Apesar disso, algo em minha mente se expande, cautelosa no início, procurando algum lugar no qual se quietar, mas só consegue expandir meus neurônios, conectar uns aos outros, explorar meu cérebro - meu id, meu ego, meu superego - , meu consciente, meu inconsciente, meu eu escondido. De cautelosa, me invade, corpo e mente. 
Minha mente em combustão ferrenha! Meu corpo formiga como se eu nunca houvesse escrito uma verdade tão grande. As grandes verdades da vida me inundam, como se eu nunca as tivesse visto. É hora de recomeçar? Talvez. Ciclos terminam; ciclos recomeçam, o tempo passa, a comida fica pronta, a fome vai-se embora, o corpo reclama, o barulho intervem, as teclas não sentem meus dedos, inertes. Penso no nada, penso no tudo - e tudo está confuso e inebriado. O Caos. Meu oculto caótico. Tudo se rearrumando e se reajustando. A inspiração bate e vem, forte como um martelo em um prego torto. Tento escutar alguma música, mas sinto que só atrapalharia.
A respiração, curta e mansa, porém profunda, inunda o corpo, um corpo meio cansado, meio batalhado pelo tempo. Pernas cruzadas, espinha ereta, cabeça baixa, os dedos sem parar batem nas teclas erradas que irei consertar mais tarde com uma força alucinante. 
Talvez eu tenha descoberto o que se conectar consigo mesmo represente; a abertura da mente, a razão se esvaindo. Não há razão no subconsciente, só há a proximidade da sua alma, a profundidade de um lago azul-escuro e tormentoso. 
Neste texto não há nada para ser entendido. E tudo ao mesmo tempo. Um caos organizado e limpo - limpo da humanidade, limpo da vergonha, limpo do barulho, limpo de tudo que poderia não expor uma alma. É embaçado e lindo. É caótico, confuso, mas não é inerte - age escondido, aos poucos.
A mente se expande, se abre e se fecha novamente, aos poucos. 
Já me vou. A porta e abriu e está se fechando; a volta da razão a da fome. 

Paolla Milnyczul  

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