quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Sobre o Sentimento de Inadequação

Hoje eu estava lendo sobre o sentimento de inadequação, e  realmente vi, imediatamente, que poxa, não fui só eu quem sente ou sentiu isso - não sou o umbigo do mundo. Sim, eu me sinto inadequada. Nunca me senti parte de muita coisa, nem de muitos lugares. Costumo tentar me misturar com  os demais, geralmente sem muita chance de sucesso - não sei, acho que a minha presença incomoda ou deixa as pessoas com um pé atrás - , mas finjo estar tudo OK e sigo em frente, porque não há como recusar a vida. 
O sentimento de inadequação sempre caminhou comigo, todos os dias da minha vida. Bateu mais forte hoje. Sinto-me cansada. Não consigo me adequar muito. (Significa que não sou adequada segundo os parâmetros da "normalidade"? Isso é algo há se pensar!). 
Na infância, sentia-me inadequada naquele espaço físico da escola. Vamos resumir: estudei numa escola particular, e, naquela sala, eu era a única parda de cabelo afro, e todos eram muito branquinhos com seus cabelos lisos, no máximo ondulados. Consequência: sentia-me perdida pois era vítima do preconceito, já quando criança. Os meninos faziam musiquinhas com meu cabelo, e me chamavam de apelidos que não irei repetir aqui mas que ainda ecoam na minha cabeça em certos momentos, e eu enchia eles de porrada (sim, eu batia, e muito!) até se calarem.  Por outro lado, me destacava pela inteligência, perspicácia e rapidez de pensamento - se há uma coisa que eu admito sem falsa modéstia é que sou e sempre fui MUITO inteligente. Tinha poucas coleguinhas, mas que mantenho contato até hoje, e algumas viraram grandes amigas, e o são até o presente momento.
Durante a adolescência, em momento algum consegui viver seguindo as regras preestabelecidas dos lugares em que estudei - oh, sim, eu sempre as quebrava, sem quase ninguém ficar sabendo! Sempre fui muito contra a maré, e não sei porque. Foi nesse momento que encontrei pessoas que pensavam o mesmo que eu. Bom ressaltar: naquele momento da minha vida, já pouco ou nada me abalava em relação à preconceito, etc. até porque as pessoas eram mais diversificadas e ninguém meio que ligava pra isso. Fazia amizade com as pessoas mais improváveis - os estranhos no ninho - , costumava falar com todo mundo, sem formar panelinhas, e ao mesmo tempo, quando não ia com a cara de alguma pessoa, não tinha santo que me fizesse mudar de ideia. Me sentia totalmente adequada e feliz com os inadequados e estranhos. Repeti a oitava serie por desatenção, mas, ao mesmo tempo, me tornei monitora de Química. Acho que, na verdade, eu despertava nas pessoas algo de curiosidade, ou de se sentirem completas ao meu lado... mas não sei. Não era como os outros. E o que era mais engraçado, é o quanto eu era respeitada tanto pelos colegas como pelos professores. Ninguém mexia muito comigo. Mas, em certos momentos, apesar de tudo isso, sentia-me totalmente fora de espaço. E isso já não era novidade pra mim. 
Fiz faculdade no interior de São Paulo. Morei 3 anos e meio sozinha, e era a única nordestina. Foi nesse momento que aprendi a driblar, confrontar e responder contra preconceitos, racismo e xenofobia. Soube me impor adequadamente, e deixar muitas pessoas caladas. Assim como no segundo grau, me respeitavam. Mas só que, naquele momento, eu servia de exemplo para todos. Não somente pelas excelentes notas, mas pela coragem de morar sozinha e fazer faculdade em outro estado, e de só ver a minha família duas vezes por ano. (Que, na verdade pra mim não era coragem alguma, afinal, qual era o problema de se fazer faculdade longe de casa? Na verdade, nunca pensei muito antes de fazer qualquer coisa, como mudar de estado em três dias, e acho que isso me ajudou bastante na vida - será?). Mas, apesar de falar com TODO MUNDO da sala, enquanto a maioria formava grupinhos e um criticava o outro, eu era sempre quieta, e muito observadora. Lembro-me muito bem de um episódio: iria ter um seminário em grupo, e eu não entendi muito bem pois tinha tido três provas e não estudei para o seminário - e nem minhas colegas - , mas tive coragem de ir apresentar esse seminário e de falar que não tinha entendido muito o sentido do trabalho e, por ter falado isso, consegui uma segunda chance de fazer o seminário porque fui honesta - enquanto outras pessoas que somente leram o que estava no papel não ganharam essa chance. 
Pela minha quietude, logo que comecei a trabalhar na minha área, depois de formada, era um total peixe fora d'água. Tantas pessoas já me perguntaram "mas o que você está fazendo aqui?"que nem consigo contar. Na verdade, até hoje, passados sete ou oito anos, ainda me perguntam. Sinto um mini bullyng (será?) em relação a isso, mas até o momento não constatei isso, e nunca pensei em como isso reflete em mim e no meu trabalho - se querem me acomodar, erraram, não sou do tipo que se leva pela boca dos outros. Mas acho que se ouvir mais uma vez "volta pra tua cidade, garota", vou bater de frente com a pessoa, então evito os mesmos lugares que ela - o que agora me parece impossível - pra não dar problema. Por outro lado, várias pessoas me ajudaram a vencer muitas barreiras, e a elas eu agradeço imensamente, pois me fizeram sentir parte essencial de um trabalho importante, e não o contrário. Elas nunca perguntaram "o que você esta fazendo aqui?". Essas foram as poucas pessoas que não me viram como quieta, mas sim como observadora e cuidadosa. Não tiveram uma leitura superficial de mim, e nunca duvidaram da minha capacidade. Mas, como são poucas pessoas, ainda sinto a inadequação todos os dias. 
Não vamos entrar aqui em termo de família ou relacionamento, porque não saberia descrever. A única coisa que posso colocar é que sempre bati muito de frente, e quando acho algo certo, batalho até o fim para que as pessoas me ouçam e entendam. Ou, no mínimo, respeitem. Não tenho medo de dar a cara a tapa se necessário. Digo muito o que penso, mas pouco o que sinto, e isso já me causou inúmeros problemas, alguns difíceis de contornar. Tenho aprendido mais a falar sobre o que sinto, mas ainda me expresso melhor escrevendo sobre isso. 
Sentir-me inadequada me levava a conhecer várias pessoas diferentes, com vidas deferentes, em lugares diferentes, tendo assim uma vasta rede de contatos ativa ainda hoje. Acho que de certa forma me ajudou a progredir muito na minha vida, por que nunca fui de me acomodar demais, nem de andar sempre com as mesmas pessoas, e nunca me conformar porque "tem-que-ser-assim". É estranho notar isso somente aos 33 anos de idade enquanto se lê um livro às 7h da manhã. 
Se eu gosto da inadequação? Não sei. Há uma necessidade constante e tão grande das pessoas de se adequarem ao "normal", que é fora do comum. Afinal, o mundo mudou muito desde quando o conceito de "normalidade" foi vendido por aí em livros de auto ajuda. 
Acho que todos se sentem inadequados, mas poucos têm coragem de admitir isso. Principalmente a si mesmos. Não é à toa que há tantos remédios rolando por aí de mão em mão e de receita em receita para se contornar a inadequação social que ronda nossas vidas.
Sorte (será só sorte?) minha aceitar-me tal como sou, e não ter que lançar mão disso para me sentir "aceitável socialmente".

Sinto-me adequada e ajustada à mim mesma.

Paolla Milnyczul