quinta-feira, 26 de março de 2015

Ângulos




Eu tenho muito amor no meu coração. Mas nem por isso sou besta, boba, menina tonta que não vê as coisas que acontecem ao meu redor. Não, nada disso. Sou forte. E nem um pouco besta. Meiga só com quem merece. 
Mas sou super tranquila e gosto de paz, sabe? Da paz de ter um coração tranquilo. Da paz de ter uma vida sem pesos desnecessários. Da paz de ter na minha vida só quem eu gosto e prezo. Gente que me acrescenta coisas boas e me ajuda a ver a vida de ângulos bonitos.

Paolla Milnyczul

sábado, 14 de março de 2015

Cortinas da Vida

Tenho andado distraída. Ou ao menos parecido estar para algumas pessoas. Falado cada vez menos. prestado cada vez mais atenção a cada gesto. Andado com a audição bem aguçada e o olhar cada vez mais instigador. Tenho afastado alguns instintos predatórios para não queimar perante a fogueira dos conservadores. Para não me deixar levar somente por instintos, e sim pela razão. Razão esta que me deixa numa posição agora da qual não posso mais sair. E está tudo muito bem, sabe? Apesar da distração. De devanear lentamente ao ler qualquer frase de um livro qualquer, seja de fantasia ou filosofia - ando apaixonada por Kant! 
A questão central de todo esse discurso que não leva à lugar algum é que algumas pessoas falam demais. Não se distraem. Levam tudo a ferro e fogo. Tiram outras pessoas para mártir. Apontam demais sem sequer saber o que se passa. Não têm suporte emocional, e, para ter, tentam derrubar o suporte alheio, e acabam se abalando mais ainda quando veem que o alheio não é tão alheio assim, e que o equilíbrio não é tão desequilibrado assim. E, com isso, são descobertas as hipocrisias, o falatório demasiado, a falta de argumentação perante qualquer pergunta que saia do trivial, a satisfação de denegrir a imagem de qualquer pessoa que não agrade. Pois não me importa mais. Não me importa idade, não me importa condição, não me importa a queda da imunidade, não me importa mais nada que não seja a condição de respeito, que deveria ser inerente a qualquer ser humano diante de qualquer outro ser humano. 
E é aí que vejo - ah, sim, e como vejo! - que o meu silêncio é um amigo e tanto, que não aumentar o tom de voz está a meu favor, mas que às vezes é necessário falar mais com as pessoas certas e aumentar um pouco o tom para me impôr mais faz toda a diferença. 
A distração faz parte da peça. O olhar alheio, o pensar demais, o falar de menos, não. Essa realmente sou eu - quieta, na minha, observadora, às vezes até reclusa, mas atenta à qualquer manifestação. Pois, na verdade, todos estamos numa peça, e não adianta dizer que não estamos, pois todos nos protegemos: protegemos nossos umbigos, corações e mentes de qualquer um ou de qualquer situação que nos ponha em perigo, que nos denigra a imagem límpida e cristalina que demoramos tanto a construir, com sangue, vísceras, nervos inflamados que não tem cura, suores constantes e quedas de pressão, lágrimas e esforços repetitivos, faltas de ar e taquicardias. 
É simples: ninguém se mostra cem por cento; na vida, estamos todos encenando, e presos às cortinas. Todo mundo é mistério - uns mais, uns menos. E alguns são mais - me mostro bem pouco, e somente à quem merece - prefiro o mistério que não conseguem desvendar, um olhar que não conseguem definir. Poucos me conhecem realmente. Poucos me conhecem por inteiro, poucos são os meus amigos e amores, nos quais confio demasiadamente, a poucos me mostro como realmente sou, sem mistérios - ao final de tudo, sou engraçadíssima e palhaça, acreditem! - e quem são estas pessoas, ah!, elas sabem: são naquelas em que confio, não aquelas que eu conto minha vida, meus desafios, meus desatinos, minhas oscilações de humor; são aquelas a quem protejo, aqueles a quem eu me abro sem proteção alguma. Tudo depende de quem você é. A vida é encenação. [Ou não.].
Tudo isso porquê preciso me proteger do mal alheio. Da hipocrisia demasiada. De pessoas que não me fazem bem. (Nem aos outros.). De energia pesadas que emanam de alguns olhares e vozes estridentes. Mas dessa vez me protegi demais. Desta vez, vejo mais o meu próprio umbigo do que o dos outros. Desta vez, estou sendo egoísta. Desta vez, meu individualismo fala mais alto. Desta vez, não sinto muito.
Desta vez, o desfecho é o seguinte: me desculpe, mas não me desculpo por estar certa. 

E assim se abrem e se fecham as cortinas desta peça. 


Paolla Milnyczul