terça-feira, 13 de agosto de 2013

Conto: A História de Júlia

Júlia era uma dessas meninas que parecia ter medo de viver. Era teimosa, cheia de pudores, canceriana duas vezes, no sol e no ascendente. Júlia às vezes escrevia. E tudo que ela escrevia ia para o lixo. Não porque ela quisesse, mas porque era forçada, por si mesma, a jogar fora, pois ela se descrevia sem querer e depois sentia vergonha de si mesma. Júlia tinha um sonho que ela sabia que nunca iria vivenciar: ela queria morar na Europa. Mas Júlia era pobre. Vivia num casarão aos pedaços, herança de sua avó materna para sua mãe. A mãe de Júlia, dona Nadir, era uma daquelas matronas, mulher corpulenta de modos austeros e poucas palavras, criava os filhos com pulso firme. Menos Júlia. Talvez porque ela fosse a única menina, e ainda caçula, era poupada das surras. Para Júlia, sobrava o olhar forte. 
Júlia era menina tímida, quieta. Riscava suas histórias e desenhava sonhos. Júlia tinha uma amiga - Maria. Maria era o oposto de Júlia. Era espoleta, não tinha medo de ser pega na rua pelo pai, já namorava sério. Júlia não. Não que alguém soubesse, além de Maria, mas Júlia era apaixonada por um homem - não garoto, homem - bem mais velho do que ela. O nome, Maria nunca conseguiu arrancar, e a mãe e os seus três irmãos mais velhos nem imaginavam. Mas Maria sabia que Júlia já havia saído com ele, e mais de uma vez. Júlia corava quando ouvia sobre ele, mas o nome dele, nunca mencionara. Nem iria. Júlia escrevia para ele mas sempre acabava queimando suas cartas. Júlia não sabia o que era amar, então achava que era somente paixão. E resolveu esquecer.
Todos tomaram rumos diferentes. O homem desconhecido, sumiu. Maria casou grávida do seu namoradinho de juventude, levou uma vida infeliz,  e nada lhe sobrou da espoletagem da juventude, somente uma mulher cansada, com uma penca de filhos para criar e um marido bêbado que só não a batia porque ela batia nele antes que isso acontecesse. Dona Nadir faleceu de causas naturais, lhe deixando a casa aos pedaços, que Júlia reformou anos depois de formada. Seus irmãos se casaram e se mudaram. Deles, Júlia nada mais soube. 
Júlia, diferente do que todos pensavam, foi a mais bem sucedida. Se formou com honras em Psicologia, tornou-se Psicóloga renomada na pequena cidade de Diamantina, em Minas Gerais. Casou-se com Genaro, italiano da Sicília, que se mudou para o Brasil quando criança, era romantizado por Júlia desde adolescente, enamorado por ela quando jovem. Teve quatro filhos, todos homens. Enviuvou há quase um ano. 
Mas Júlia tinha um segredo: nunca amou Genaro. O único homem que amara era o homem sem nome. De uns tempos pra cá, Júlia decidiu reler poemas de juventude que não tinham ido parar no lixo ou sido queimados. Dentro eles, encontrou um destas cartas que não tinha mandado para o misterioso homem, e leu, assustada, o que escreveu aos seus 16 anos, na flor da juventude, tantos anos atrás. Uma carta não de amor, mas uma carta de despedida que nunca fora mandada:

12 de Novembro de 1956
Diamantina, MG

Querido R.,

Quantas vezes eu já te escrevi? Já te escrevi milhões de vezes. Para falar que sinto falta do nosso licor de cassis e cerejas. Dos nossos jantares em noites quentes vendo lua e estrelas no seu apartamento, deitados na varanda e conversando amenidades sem sapatos. Já te escrevi para te falar desses olhos castanhos tão lindos que brilham e me chamam.
Já te escrevi para te falar que eu sei que você me ama, e não é de hoje. 
Já te escrevi para falar que não te amo, mas não vivo sem você. Para te falar que também não é paixão. É pele e possessividade. 
Nunca te enviei nenhum dos dos meus escritos. Nem irei.
Você nunca saberá da verdade do meu coração bordado. 
Até porque você já sabe. Dentro do seu peito e gravado na sua mente. 

Sua,
porém não para sempre,
Júlia Almeida

Júlia leu e releu várias vezes. E lembrou-se das certas liberdades que deu àquele homem, de como era tola e deixou-se levar pela sedução das palavras que ele lhe sussurrava ao pé do ouvido. De como ninguém nunca soubera de seu segredo, o nome mais bem guardado de toda a história de sua vida: Roberto Guimarães. Pouco tempo depois de ela ter escrito esta última carta não mandada, ele faleceu. Alguns dizem que de tanto beber de desgosto. Outros dizem que morreu de saudades. Alguns ainda dizem que ele morreu por falta do amor de uma jovem menina sem nome e desconhecida, que lhe prometeu o coração e não lhe deu nem a mão, que ele lhe pediu em vão. 
Júlia nunca aceitara o pedido de casamento de Roberto pois sabia que a sua mãe nunca aceitaria que ela se casasse com um homem sem futuro nem casa, caixeiro-viajante e 20 anos mais velho do que ela. Ainda mais com filho de outra para sustentar, e - horror dos horrores! - desquitado. 
Júlia fugiu do seu destino, do destino que o seu coração mandara. Pouco depois de ler e reler esta carta inúmeras vezes, tomou um chá, cuidou das plantas, deu comida aos gatos, tomou um banho, se perfumou inteira, deitou e dormiu para nunca mais acordar, com a carta nas mãos e um belo sorriso no rosto, que, dizem, foi o motivo do caixão não ter sido aberto.

A carta sumiu para nunca mais aparecer.

Paolla Milnyczul

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