terça-feira, 5 de junho de 2012

Ao Mestre Com Carinho

Eu ia deixar esse texto para o dia dos pais, ou perto do seu aniversário, mas sou da opinião de que a gente tem que falar o que tá no coração. (Que no meu caso é mais escrever do que falar!). Ah, eu amo meu pai demais. Com ele aprendi coisas demais. Mesmo ele não estando tão presente quanto eu gostaria na maior parte da minha vida, quando a gente cresce a gente vai percebendo o por que: ele estava presente de outra forma, querendo que o meu futuro fosse o melhor possível. Agora posso dizer que entendo. 
Hoje acordei com uma saudade imensa e uma baita vontade de abraçar meu pai e ter uma das nossas conversas solitárias, sentados com uma taça de vinho ou rodando de carro. Momentos só nossos, sem ninguém ao lado, o que, diga-se de passagem, é bem raro.
Sempre que me lembro do meu pai, lembro dele todo de branco, trabalhando. Pela manhã, pela tarde, pela noite, de madrugada, feriado, sábado e domingo. Sem pausa. Sem descanso. E tudo isso sem reclamar. Tudo dar a mim e ao meu irmão o melhor possível. Na época eu me zangava, queria a presença física, tão difícil de conseguir. Mas – sei lá como – sempre nos entendíamos sem falar nada. Temos o mesmo jeito, uma personalidade parecida, o mesmo defeito imenso de ficar amuado guardando sentimento e explodir de repente a troco de quase nada. 
Somos observadores, distraídos, cabeça na lua, vaidosos. Temos a mesma impaciência, mas com um jeito paciente. E tentamos sempre entender as coisas e as pessoas. Entender o mundo é o que nos move. Sempre moveu. Nos envolvemos com nossas dores e as dos outros ao mesmo tempo e isso nos deixa loucos. Somos eternos justiceiros de nós mesmos: não nos permitimos cometer injustiças. Nos entendemos pelo tom de voz, pela hora do telefonema, pelo olhar, pelo silêncio, por um simples suspiro. Justamente por isso ele não exige de mim do que eu não posso dar. Eu não exijo dele mais do que ele pode. Talvez por isso nós nos entendamos cada vez melhor: não há cobranças nem exigências – entende-se e tudo fica bem. Tudo o que nos dói, nos dói muito, tudo que nos alegra, nos alegra muito, talvez por isso tudo o que sentimos, sentimos MUITO e com tal profundidade que é um milagre ainda estarmos inteiros. 
Como filha, sei que não fui – nem sou – bem o que ele gostaria que eu fosse. E no começo ele não entendeu, mas hoje ele entende que eu sou como sou: forte, teimosa, exigente, mandona, excêntrica, independente, um pouco silenciosa demais, orgulhosa, com a língua ácida demais às vezes. E que sou feliz assim, e que se eu me respeito assim, se eu me conheço o suficiente pra saber até onde eu posso ir, basta a ele aceitar. Aceitar a minha falta de jeito, aceitar que não se pode exigir perfeição daquele que nos cerca, pois somos nós mesmos seres imperfeitos. Aceitar defeitos daquela pessoinha que você vê crescer, cria, educa, alimenta, veste, e prepara pra vida deve ser difícil. 
Eu não preciso falar muito com meu pai, poucas palavras bastam. Aprendi com ele – e com a minha mãe – o valor do trabalho, aprendi – talvez com seus erros, talvez com seus acertos – que a gente tem que dar valor ao que se tem sem querer demais, aprendi que ser paciente com a vida pode não ser a forma mais fácil de viver, geralmente é a mais árdua, mas é a que dá os resultados mais certeiros. Aprendi que os momentos que passamos com nossa família, nossos amigos, com pessoas que nos querem bem nós devemos dar muito valor. Aprendi que a vida nunca dá pouco ou muito, e sim que a vida nos dá o que precisamos dela. Mas principalmente, com ele, eu aprendi a sonhar mais – eu, uma eterna pé no chão, aprendi a sonhar, veja só isso! E ele aprendeu muito comigo. Foi meu primeiro amor, foi meu primeiro – e único – herói. 

Pai, você está aqui comigo sempre. Mesmo morando longe. Mesmo nos vendo pouco, nos falando pouco, entendemos um ao outro, não é emocionante? O amor que eu tenho por você é sem tamanho, é sem igual, é estrondoso. Seus olhos castanho-claros pacientes e a sua voz pausada me fazem uma falta enorme. Morro de saudade dos seus eternos atrasos, eu que sou pontual, e ainda bem que você sabe disso, quando marca comigo nunca se atrasa, nem que para isso tenha que acordar três horas mais cedo. Hoje eu só tenho o que agradecer a você: pai, obrigada. Por embalar meu sono, por me fazer acordar quando você chegava do trabalho e me pendurar no teu pescoço só pra depois voltar a dormir quando eu era criança, por tantas histórias contadas ao pé da cama (você se lembra?), por me dar algumas das melhores lembranças da minha infância, por ter sido meu herói e meu bandido, por suas broncas, por me fazer perceber que ser fiel a si mesmo vale muito a pena, por estar me apoiando nesta nova etapa da minha vida, por me ouvir, por ter uma paciência gigante comigo, por ter me passado seus ensinamentos, e por tantas outras coisas, mas, principalmente, por dividir comigo o que você tem de mais precioso: o seu amor. 

Nós não somos só pai e filha, não, somos também – meio que por acaso – o melhor amigo um do outro. 

Pai, eu te amo! 


Paolla Milnyczul 


“Que riqueza não é, até entre os pobres, ser filho de um bom pai.” – Juan Luis Vives 

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2 comentários:

  1. Lindo, verdadeiro, emocionamente!!!
    Que capacidade de transformar sentimentos em palavras, coisa rara de se fazer, parabens por conseguir emocionar só em nos fazer imaginar!

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  2. Um amor declarado como esse é de nos deixar com os olhos brilhando.

    Beijão!

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