domingo, 22 de janeiro de 2012

Família êh! Família ah! Família!

Tudo começa assim: você cai num mundo desconhecido, ainda meio cego, chorando loucamente, com frio e sendo pego por mãos emborrachadas de luvas. Toma banho à força e chora mais ainda, porque você quer mesmo é voltar pra aquele mundo quentinho e aconchegante de onde saiu, em que podia ficar à toa e nadar a vontade. Até encontrar aquelas pessoas que já te amavam de um jeito incondicional desde antes de você nascer: sua família. Entenda, quando falo de família, falo de pai, mãe, irmãos.
Porquê um dia você cai de paraquedas na vida deles e eles na sua, e a vida te fala 'toma, é seu'. Parece simples mas não é. Vida em família é meio como vida em sociedade. Algumas coisas são toleráveis, outras não; algumas coisas são aceitáveis, outras não. Cada um tem suas peculiaridades, e é preciso saber conviver, porque família a gente não escolhe. Um é mais agarrado, outro é mais desapegado, um é mais independente, o pai é assim, a mãe é assado, os filhos são assim-e-assado ou assado-e-assim, as personalidades se misturam e na realidade ninguém se parece muito com ninguém – nem na aparência nem na personalidade.
Todos falam que família é só amor, paz, harmonia, e que é eternamente lindo e maravilhoso. Balela. Em família todos se desentendem, às vezes instala-se o caos, pais e mães brigam entre si e com os filhos que só tentam entender o que está acontecendo mas demonstram de um jeito totalmente desordenado. Então os filhos ficam impossíveis, atormentam os pais, e entre eles mesmos brigam interminavelmente, e cada um vai pro seu canto e não há paz e harmonia que dê jeito - ninguém se odeia, só quer ficar um pouco só sem conseguir. E então só se espera baixar a poeira e tudo voltar ao dito "normal". Mas, por mais incrível que pareça, foram nestas épocas de individualismo agudo que ficamos mais fortes contra o que vinha lá de fora – tem uma carta que eu fiz pro meu pai que ele tem até hoje, é meio como um talismã – , e foi numa destas épocas que eu dei uma fugida e fiquei mais amiga ainda do ser que mais me entendia naquele momento: meu irmão.
Minha família é meio bagunçada, meio desarrumada, é meio cada-um-no-seu-canto, todos diferentes e meio iguais. Deu pra entender? Pois é. Além do amor imensurável, tenho apreço, admiração, ciúme, possessividade (sim, ciúme e possessividade!), respeito e orgulho pela minha família, mesmo sendo assim, meio desarrumadinha. Meu pai e minha mãe são meus ídolos. Tenho um pouco de cada um, mas a minha personalidade, na verdade, não se parece com nenhum dos dois. Do meu pai, tenho o jeito meio quieto, no meu canto, sem muitos beijos e abraços e 'nhé-nhé-nhé', me comunicando com os olhos, os trejeitos e a transparência do que sinto ou acho pelas feições faciais – isso é idêntico mesmo ao meu pai, sem tirar nem pôr, e mesmo que ele ache que disfarça, ele não disfarça, sei pela boa observadora que sou! Da minha mãe, a garra e a determinação de quem não desiste nunca, mesmo sabendo que há um logo caminho a ser percorrido, o apreço pela arte, a vaidade e o espírito jovem e impulsivo.
E tem meu irmão. Por ser mais novo, tenho um pouco de protetocionismo quanto à ele, é meu protegido desde criança – ai de quem mexe com ele porque eu brigo até hoje – , sempre foi meu xodó! Temos os mesmos amigos, a mesma turma, moramos juntos por duas vezes só nós dois, e mesmo que às vezes eu parecesse dura com ele nessas épocas é porque o amo demais e só queria que ele aprendesse a se virar sozinho um pouco. Dei vários 'nãos' pra ele sem explicar nada, passei a mão na cabeça diversas vezes, já chorei no ombro dele e ele no meu, dei bronca – e se precisar dou até hoje, mesmo ele sendo um homem casado, com um filho, formado – pois é meu irmão mais novo e ponto. E sei que quando ele quer uma opinião mega sincera e sem rodeios ele pode me procurar e perguntar, porque não tenho papas na língua e falo mesmo. E ele sabe, e como sabe!
Minha família já que passou por furacões, abalos sísmicos, calmarias estranhas – nunca fomos de ter calmarias, sempre havia alguma novidade – , e de novo novos abalos e separações e então cada um estendeu os tentáculos para um lado de vez. E de todos, acho que sou a mais desapegada, e meu irmão o mais apegado – não devia ser o contrário? Não é por mal, nem porque gosto menos, ou nada assim. Acho que é uma proteção contra machucados que eu uso, como se fosse um band-aid da alma, durante toda a minha vida – um pouco de desapego e frieza. Talvez por causa de tantas coisas que já passei e que são segredo e não conto – quem sabe, sabe porque viveu junto.
Mas continuo firme e forte graças a eles – pai, mãe, irmão. Pessoas que, eu sei, são as únicas que me amam incondicionalmente, independentemente do que eu fizer ou falar, e do jeito que eu for. Isso é família.


Paolla Milnyczul


"O que é uma família senão o mais admirável dos governos?"  Henri Lacordaire  




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Um comentário:

  1. Maravilha de texto como sempre, querida! Família é família! Beijos.

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