domingo, 27 de novembro de 2011

Tesouros da Vida

Eu não sei quando foi que eu comecei a ler, mas eu me lembro de quando tinha uns 8 ou 9 anos e a minha mãe me chantageava de uma maneira que eu acho que mãe alguma chanteageria uma criança: sem lição, sem livro. E não era só gibi do Maurício de Souza, era livro mesmo – de criança mas era. Sério.  
Aos 12 anos, surgiu em minha vida Sidney Sheldon em Nada Dura Para Sempre, e foi então que comecei a lê-lo, li quase todos, e hoje em dia coleciono seus livros como raridades. Mais ou menos nessa idade, me lembro de ler Coma de Robin Cook – difícil para a minha compreensão naquela idade, mas eu adorei mesmo assim. Livro que peguei emprestado – e escondido – do meu pai, que descobriu e acabou me dando, aí me apaixonei por Cook, mas não achava seus livros, eles tem uma linguagem muito específica e difícil.
Clarice Lispector entrou em minha vida do nada, num dia chuvoso aos 15 ou 16 anos. Pois do nada apareceu na minha frente sua crônica Mineirinho e eu vi aquela apaixonante e louca – que louca! – narrativa, e desde então leio-a cada vez mais, e nunca me canso.  Assim como Machado de Assis, Cecília Meirelles, Eça de Queiróz, Pablo Neruda, Drummond, Mário Quintana, Manuel Bandeira, todos eu li nesta época. Mas Clarice marcou mais.
Aos 17 anos, Anne Rice e seu livro O Vampiro Lestat entram em minha vida, ela com seus intensos e vulneráveis seres místicos me conquistou também, li tantos, e todos são apaixonantes, um completa o outro, é louco, ensandecido, um livro após o outro, incríveis, e todos tem reticências – deixam um gosto de quero mais.
Aos 19 anos, já havia lido toda a obra de Jorge Amado, e gostei de quase todos – menos O País do Carnaval – ai, que narrativas apaixonantes, que personagens complexos e ao mesmo tempo tão simples – Tieta, Tereza Batista, Gabriela, Dona Flor. O que eu mais gosto é Tereza Batista Cansada de Guerra, me encantou a batalha daquela mulher. Mulher brasileira, é o que Tereza é.  
Mais ou menos aos 21 ou 22 anos, me encantei com Rosamunde Pilcher em O Regresso, um livro gigantesco com cerca de mil páginas. Pois li e reli e virou relíquia, tá na casa do meu pai, porque minha irmãzinha leu e gostou, então lá deixei, e logo depois comprei Os Catadores de Conchas e O Tigre Adormecido. Na mesma época, li Okavango, de Achel Tinoco, e gostei do estilo, este mês ele lança outro dos seus livros, Batalha de Mestre, que não li, mas estou louca para ler – parabéns amigo!
Foi mais ou menos nesta época que eu morei no interior de São Paulo, e, maravilha das maravilhas, minha casa ficava a duas quadras da Biblioteca Municipal, e eu, universitária, dura e sem computador, toda semana tava na biblioteca deixando um livro e pegando outro – foi assim que consegui ler quase todos de Robin Cook e Clarice Lispector, reli quase todos de Jorge Amado, e descobri autores novos, Dan Brown é um deles, mas de todos os seus livros, nenhum me chamou a atenção a ponto de eu colocar como um dos meus autores prediletos.
Hoje em dia tenho em mãos Martha Medeiros em Feliz Por Nada e, ai, cada crônica, cada relato, é verdadeiro, e é lindo. Ela é uma mestra da vida, ensina, faz a gente viver lendo, e também Clarice na Cabeceira, um montante de vinte crônicas da Clarice escolhidas a dedo, entre elas, aquela pela qual eu me apaixonei por  ela – Mineirinho. Clarice escreve despudorada, livre de amarras, com intensidade e emoção, nua de rótulos.
Tenho uma sede de conhecimento e de livro sem fim, provei e gostei, meus livros são meus tesouros, é ouro e prata de conhecimento. Não me vejo sem livros e mesmo hoje em dia, com toda a popularidade dos e-books, gosto é de livro. Das páginas e do cheiro de livro novo, da capa e suas nuances e relevos, seus resumos. Tenho a ambição ultimamente de conseguir ter em casa todos que li e mais alguns da Clarice Lispector e os da Martha Medeiros. Parece uma ambição tão pequena, mas não é.
E quem disse que conhecimento é  algo pequeno?

Paolla Milnyczul

"Provação. Agora entendo o que é provação. Provação: significa que a vida está me provando.
Mas provação: significa que eu também estou provando. E provar pode se transformar numa sede cada vez mais insaciável." 
– Clarice Lispector




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3 comentários:

  1. "Provação. Agora entendo o que é provação.
    Provação: significa que a vida está me provando.
    Mas provação: significa que eu também estou provando. E provar pode se transformar numa sede cada vez mais insaciável." Clarice Lispector

    Amei isso!

    É tão bom ter sua companhia no blogger!
    Bem Vinda! tô aqui no teu cantinho também! Beijos! :)

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  2. querida amiga, só mesmo você. Mas bem que a sua iniciação literária foi das melhores. E quando chegou naquele tal de Achel, ah, ele aqui quase cai da cadeira de tão narciso que ficou. Obrigado pelo carinho. Se toda criança fosse lendo assim como você, decerto teríamos um país de leitores. Ler protege o cérebro, aquece o coração e liberta a alma. Esta alma liberta, vai correr mundos, e, principalmente, vai sonhar... Obrigado.

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  3. Olá Paolla,
    que coincidência a nossa: também eu li "Os anjos em fúria" do Sidney Sheldon com 13 anos. E foi através dele que se definiu a minha aspiração profissional.
    E também eu sou fascinada pela Clarice.
    Os livros, as palavras, as ideias traçam mundos que nos absorvem magicamente. Ainda bem que assim é...
    Beijos.

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